Textando


De repente 19


Lembro-me, até hoje, daquela cena. Era o meu aniversário, acho que de doze anos, e o pai, ao me dar os parabéns, disse: “filho, agora você está entrando na adolescência. Aproveita bastante, porque é a melhor fase da vida, mas também a que passa mais rápido”. Complemento isto com o que Oscar Wilde disse através do personagem Lorde Harry em seu romance O Retrato de Dorian Gray: que é a juventude que nos possibilita as melhores experiências que podemos ter na vida.

A obra acima citada narra a tragédia de um belo garoto, Dorian Gray, que ganha a consciência de que envelhecerá mas o seu retrato não. Diante desta realidade, deseja que a sua representação no quadro envelheça ao invés dele, para que pudesse continuar desfrutando dos prazeres proporcionados pela mocidade – o que consegue, mas a um alto custo.

Não sei até onde sofro do mesmo problema que Dorian Gray. Igualmente consciente de que a jovialidade um dia irá (e já está começando a ir) embora, confesso também que desejo que não me pese o passar do tempo. A adolescência foi excelente, mas me parece que passou rápido demais, tal como o meu pai já tinha me advertido que aconteceria. Um dia dou o meu primeiro beijo, no seguinte a minha primeira grande festa, depois o meu primeiro copo de álcool, a primeira virada de noite com colegas, a primeira transa... E, de repente, aqui estou eu, com 19 anos.

A palavra “futuro” já não me soa mais como uma palavra que se refere a um porvir distante, mas sim como algo que logo virá. É neste momento que construo as bases definitivas do meu futuro profissional e da minha formação intelectual; por isso, devo definir prioridades e tomar decisões que afetarão o resto da minha vida. A responsabilidade não é mais com o imediato, com a prova que farei amanhã, com o trabalho da semana que vem ou de cuidar do meu primo durante o sábado, mas sim com deveres civis e acadêmicos que terão prejuízos maiores caso eu não os cumpra. Com isso, a diversão, o lazer, o ócio, a futilidade e todas essas pequenas coisas que dão graça a vida acabam tendo menor espaço no cotidiano.

Não demonstro aqui insatisfação com o meu curso ou com a vida acadêmica. Sou apaixonado por História e pelas “ciências humanas” e me sinto muito empolgado com as expectativas profissionais do meu campo. O problema está nas inevitabilidades da necessidade de sobreviver que subitamente se impõe após determinada idade: você passa a ter menos tempo para fazer o que você quer e começa a ter que fazer o que você tem que fazer. Depois dos dezoito, a luta para garantir condições materiais para uma boa existência automaticamente se faz presente, te obrigando a se submeter às regras de um sistema e renegar a satisfação de desejos e a realização de pequenos sonhos imediatos. E, a cada ano que se completa, diminuem as chances de suprir esses anseios, devido a constante diminuição de disponibilidade de tempo e da perda da apaixonante energia e saúde da juventude.

Ah, quem dera poder permanecer eternamente naquela época que, tão repente, terminou e cujos vestígios aos poucos se vão! Quem dera poder continuar a desfrutar irresponsavelmente do dia e da noite e de não ter que se preocupar em fazer planejamentos de longo prazo!

Escrito por Bruno Uchoa às 00h28
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