Duas Histórias Sobre a Minha Mediocridade
Isso aconteceu há dois anos e meio atrás, quando eu ainda estava no Ensino Médio. Estava indo do meu colégio à praça Saens Pena com dois amigos – um garoto e uma garota. No caminho, vimos um menino, que não devia ter mais que cinco anos, ao lado de um outro que supomos ser o seu irmão, com cerca de sete anos. Os dois estavam vendendo bala na rua, totalmente sujos e com roupas velhas e rasgadas.
A garota do grupo, a primeira a ver as duas crianças, as apontou e disse: “mas que absurdo!”. Concordamos que aquilo era um absurdo: como podia uma mãe ou um pai por seus filhos ainda pequenos para trabalhar? Por que eles mesmos não faziam isso? Começamos a refletir, a partir daí, acerca dos problemas sociais brasileiros e discutimos formas de superá-los. Passamos um bom tempo nesse debate; depois, mudamos de assunto e conversamos sobre algo fútil.
Foi isso tudo o que fizemos. E é isso o que, no máximo, o cidadão comum faz: pensar e discutir.
Provavelmente, os meninos cresceram e permanecem trabalhando por aí até hoje.
*****
Semana passada, alguns instantes após sair de casa rumo à faculdade, uma menininha aproximou-se de mim e disse alguma coisa. Eu a ignorei e acho que resmunguei algo do tipo: “to sem dinheiro” e continuei andando. A garota rapidamente falou: “eu não estou pedindo dinheiro!”
Curioso, resolvi parar e falar com a garotinha – até porque, talvez ela estivesse precisando de ajuda. Pedi para explicar o que ela queria.
- Você pode comprar alguma coisa pra eu vender? – perguntou.
- Desculpa, estou realmente sem grana! – respondi, mas dessa vez com sinceridade e não por um rotineiro reflexo quase automático.
Cheguei a pensar em ir até o meu apartamento, pegar um livro para dar a ela, oferecer vinte reais para que ela o lesse e propor que me procurasse assim que tivesse acabado de lê-lo para que eu pudesse lhe dar outro. Mas, ao invés disso, dei-lhe as costas e fui direto para a faculdade – e, mesmo assim, diga-se de passagem, cheguei atrasado!
Escrito por Bruno Uchoa às 14h38
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|