O cadáver num caixão
Aquela quarta-feira tinha começado como uma outra qualquer: acordei oito e meia da manhã, me arrumei e fui para a aula de filosofia no IFCS – cheguei atrasado, diga-se da passagem; nunca fui exemplo de pontualidade. Dia comum, senão fosse pela notícia do falecimento do meu avô que recebi ainda naquela aula. Horas mais tarde, eu estaria no cemitério com a minha família e mais uns amigos para o enterro...
Depois de chegar no lugar do funeral e falar com todo mundo, olhei para o caixão de longe. Uma espécie de curiosidade mórbida se instalou em mim; eu queria ver o cadáver de perto, observar com os meus próprios olhos o seu rosto sem vida. Então, me aproximei.
Parado, de olhos fechados e boca aberta. Sua pele estava roxa, mas não muito fora da normalidade. Parecia apenas estar apenas num sono profundo do qual logo despertaria. Era perturbador. Senti uma grande vontade de sacudir o caixão e gritar bem alto: “porra, acorda! Vamos, acorda!” com alguma esperança de que talvez, quem sabe, ele estivesse apenas dormindo mesmo e tudo não passava de um grande engano. Com dificuldade me controlei para não fazer esta cena ridícula (será que foi por este motivo mesmo que eu tentei me controlar? Será que não foi para aparentar ser mais forte do que realmente sou? Não tenho certeza).
“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”, disse Carlos Drummond de Andrade. De fato, a imagem me atormentou, a idéia de alguém próximo morrer me machucou, mas tive que me conformar com isso – afinal, a morte é uma destas coisas da vida que são inevitáveis e imutáveis. Na hora, me abalei em vê-lo morto; mas, com o tempo, aquilo foi parando de me afetar.
Conto isto não por mero desabafo, pois a dor já passou, mas sim como registro de uma experiência pessoal marcante. E também, é lógico, para fazer contraste com o post anterior, aproveitando assim uma oportunidade genial e cruel que o destino me proporcionou: a de refletir no Textando sobre duas experiências distintas com a morte.
Escrito por Bruno Uchoa às 01h01
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