Textando


Caros leitores (se houver),
É necessário informá-los que, após longos anos e uns quebrados (parece que foi ontem!) mantendo o Textando no Uol Blog, resolvi mudar o blog para o blogspot. Anotem aí o novo endereço: http://novotextando.blogspot.com/
Um abraço a todos e um adeus ao UolBlog!!!

Escrito por Bruno Uchoa às 22h41
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Intimidade

Imagine-se nesta situação: você com um(a) amigo(a) teu(tua). Aliás, melhor: com o teu(tua) melhor amigo(a). Os dois estão conversando e, num certo momento em que ele(a) vira de costas, você percebe que ele(a) está com uma mancha na roupa. Mais especificamente, na calça, na altura da bunda. Automaticamente, você diz:

- Ei, você está sujo atrás!

O teu(tua) amigo(a) olha para as próprias costas, procurando a tal sujeira. Após uns poucos segundos buscando pela dita cuja e não a achando, pergunta para ti:

- Aonde? Não estou vendo!

Você, com naturalidade, responde:

- Na bunda!

Ele(a) se contorce, repara em cada centímetro, mas, ainda assim, não acha. Então, ele(a) fala:

- Não consigo achar!

Logo em seguida, já de saco cheio, desiste e pede:

- Ah, quer saber? Limpa você!

E, sem pensar duas vezes e como se fosse a coisa mais comum do mundo, você limpa a bunda dele(a). Com as mãos. Nuas.

*****

Considerações Finais: A intimidade é uma palavra difícil de definir através de um modelo universal. Ela é um ser abstrato que atesta sua existência em situações diversas e distintas. Então, a expliquei por meio de um exemplo. Tirem a partir disso as suas próprias conclusões.


Escrito por Bruno Uchoa às 19h27
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





A Alegoria do Equilibrista

Condenado desde o nascimento a esta condição, o Indivíduo, o equilibrista ao qual esta alegoria se refere, tem consciência da sua situação. Sabe que caminha numa corda fina misteriosamente suspensa num imenso espaço vazio ao qual é obrigado a caminhar. Por estar o ambiente tomado pela escuridão, é incapaz de ver o caminho a sua frente (somente sabe que, por motivos óbvios, a corda terminará) ou o percurso já andado (do qual apenas pode imprecisamente recordar). Não sendo capaz de virar para trás e retornar, o Indivíduo é obrigado a prosseguir rumo ao incerto – afinal, ignora o que acontecerá quando chegar ao fim do fio ou o estado da corda nos centímetros adiante. O equilibrista está ciente disso tudo, aliás, talvez o esteja desde que se entende por gente.

Porém, a consciência plena da sua situação, por mais explicita que sempre fora, só foi capaz de obter pelo medo. Ínfimo no espaço onde está pendurada a corda em que caminha, o Indivíduo, devido às – possivelmente inextinguíveis – trevas que lhe impedem a visão do todo, não sabe o que há abaixo de si. Logo, caso escorregue, afundará num vazio que desconhece. A única certeza que agora, não mais alienado da sua realidade, possui é que irá cair - seja por acidente, seja pelo cansaço inerente ao desgastante esforço físico de manter seu corpo equilibrado na corda, ou mesmo seja pelo fato de chegar ao fim do fio, afinal, o fio tem que ter uma ponta. Agora, com esta nova e angustiante expectativa de que inevitavelmente enfrentará o incerto, um dilema é colocado ao Indivíduo: tomar o máximo de cautela na caminhada, controlando ao máximo seus movimentos e impulsos para que não caia; ou não se preocupar com a queda e aproveitar ao máximo o (curto? Longo?) tempo que consegue (ou lhe é permitido?) permanecer na corda.

Antes de perceber a complexidade da sua condição, o equilibrista distraidamente caminhava, numa clara despreocupação com o fato de que poderia cair. Assim, não foram poucas as vezes em que quase escorregou da corda, escapando por pouco da queda. Contudo, depois que experimentou o desespero de se perceber quase caindo num certo momento, adquiriu a consciência de quanto é delicada a sua condição de equilibrista. Após este tropeço que por pouco não resultou na queda, a inquietação diante do reconhecimento da própria fragilidade persegue o Indivíduo, tormento que o impede de andar sobre a corda com a mesma irresponsabilidade e inconseqüência de outrora. A partir do momento em que ganha plena noção da realidade a qual está condenado, o Indivíduo se transforma, deixa-se governar, mesmo que inconscientemente, pelo medo e se impõe a negação de certos prazeres e caprichos da vontade.

A tragédia suprema se realizou para o Indivíduo: a conquista da consciência plena da condição humana através do medo da morte experimentado numa eventualidade que quase lhe foi fatal. A relação do equilibrista com a corda e com o fardo de ter que nela caminhar, conforme demonstrado, mudou a partir deste momento decisivo.

*****

Considerações Finais: Eu tinha escrito uma explicação detalhada de onde veio a inspiração para escrever o texto acima - que, aliás, é uma história um tanto quanto intrigante e interessante. Porém, o meu amado Uol Blog me fez o favor de travar antes de publicar o post, fazendo com que eu perdesse o relato já finalizado. Recuso-me, devido à preguiça, de escrevê-lo novamente. Então, quem quiser saber, por favor, venha até mim e me pergunte.

Escrito por Bruno Uchoa às 18h10
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Rotina: Tédio e Solidão

A vida prossegue sem pouco mudar
Todo dia volto pro mesmo lugar
Pra encontrar os mesmos rostos
Que, no entanto, permanecem
contendo algo de inéditos,
E que de algo novo carecem

Todo dia com as mesmas companias
Que tão pouco conheço de fato
Sempre distantes para sentí-las
nem sequer através do tato
Formalismo e conversas supérfulas
Relações sem intimidade e frias

Companheiros apenas da futilidade
Do porre alcóolico num bar imundo
Da busca irracional por sexo
Das engraçadas piadas sem nexo
Do violão como música de fundo
Das andanças sem finalidade

Apesar do prazer de toda a diversão
Ainda assim ataca-me a solidão
E uma monotonia permanente
E sempre em estado latente
Só, mesmo com tanta gente
Entediado, apesar de sempre ocupado
Quero ver beleza jovial diferente
Em pensamentos novos ficar distraído
Quero acumular experiência
Da rotina já estou sem paciência
Quero conhecer quem me conheça
E que, por algumas breves falas,
minhas verdades interiores, reconheça,
Que minha consciência tanto calas

Quero o sabor fresco da novidade
E alguém que me conheça na totalidade
Para suportar o avanço da idade
E, quem sabe, obter algum prazer
Dar algum sentido ao meu ser
Assim, talvez, obterei a tal felicidade

*****

Considerações Finais: As vezes me bate essa inspiração poética (que ultimamente me tem faltado para a prosa, diga-se de passagem) e consigo produzir algo que preste. O poema acima é o resultado de um desses momentos em que fui misteriosamente possuído pelo belo espírito do fazedor de versos e laboriosamente fiz algo razoavelmente bom.

Escrito por Bruno Uchoa às 21h14
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




De repente 19


Lembro-me, até hoje, daquela cena. Era o meu aniversário, acho que de doze anos, e o pai, ao me dar os parabéns, disse: “filho, agora você está entrando na adolescência. Aproveita bastante, porque é a melhor fase da vida, mas também a que passa mais rápido”. Complemento isto com o que Oscar Wilde disse através do personagem Lorde Harry em seu romance O Retrato de Dorian Gray: que é a juventude que nos possibilita as melhores experiências que podemos ter na vida.

A obra acima citada narra a tragédia de um belo garoto, Dorian Gray, que ganha a consciência de que envelhecerá mas o seu retrato não. Diante desta realidade, deseja que a sua representação no quadro envelheça ao invés dele, para que pudesse continuar desfrutando dos prazeres proporcionados pela mocidade – o que consegue, mas a um alto custo.

Não sei até onde sofro do mesmo problema que Dorian Gray. Igualmente consciente de que a jovialidade um dia irá (e já está começando a ir) embora, confesso também que desejo que não me pese o passar do tempo. A adolescência foi excelente, mas me parece que passou rápido demais, tal como o meu pai já tinha me advertido que aconteceria. Um dia dou o meu primeiro beijo, no seguinte a minha primeira grande festa, depois o meu primeiro copo de álcool, a primeira virada de noite com colegas, a primeira transa... E, de repente, aqui estou eu, com 19 anos.

A palavra “futuro” já não me soa mais como uma palavra que se refere a um porvir distante, mas sim como algo que logo virá. É neste momento que construo as bases definitivas do meu futuro profissional e da minha formação intelectual; por isso, devo definir prioridades e tomar decisões que afetarão o resto da minha vida. A responsabilidade não é mais com o imediato, com a prova que farei amanhã, com o trabalho da semana que vem ou de cuidar do meu primo durante o sábado, mas sim com deveres civis e acadêmicos que terão prejuízos maiores caso eu não os cumpra. Com isso, a diversão, o lazer, o ócio, a futilidade e todas essas pequenas coisas que dão graça a vida acabam tendo menor espaço no cotidiano.

Não demonstro aqui insatisfação com o meu curso ou com a vida acadêmica. Sou apaixonado por História e pelas “ciências humanas” e me sinto muito empolgado com as expectativas profissionais do meu campo. O problema está nas inevitabilidades da necessidade de sobreviver que subitamente se impõe após determinada idade: você passa a ter menos tempo para fazer o que você quer e começa a ter que fazer o que você tem que fazer. Depois dos dezoito, a luta para garantir condições materiais para uma boa existência automaticamente se faz presente, te obrigando a se submeter às regras de um sistema e renegar a satisfação de desejos e a realização de pequenos sonhos imediatos. E, a cada ano que se completa, diminuem as chances de suprir esses anseios, devido a constante diminuição de disponibilidade de tempo e da perda da apaixonante energia e saúde da juventude.

Ah, quem dera poder permanecer eternamente naquela época que, tão repente, terminou e cujos vestígios aos poucos se vão! Quem dera poder continuar a desfrutar irresponsavelmente do dia e da noite e de não ter que se preocupar em fazer planejamentos de longo prazo!

Escrito por Bruno Uchoa às 00h28
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Duas Histórias Sobre a Minha Mediocridade

Isso aconteceu há dois anos e meio atrás, quando eu ainda estava no Ensino Médio. Estava indo do meu colégio à praça Saens Pena com dois amigos – um garoto e uma garota. No caminho, vimos um menino, que não devia ter mais que cinco anos, ao lado de um outro que supomos ser o seu irmão, com cerca de sete anos. Os dois estavam vendendo bala na rua, totalmente sujos e com roupas velhas e rasgadas.

A garota do grupo, a primeira a ver as duas crianças, as apontou e disse: “mas que absurdo!”. Concordamos que aquilo era um absurdo: como podia uma mãe ou um pai por seus filhos ainda pequenos para trabalhar? Por que eles mesmos não faziam isso? Começamos a refletir, a partir daí, acerca dos problemas sociais brasileiros e discutimos formas de superá-los. Passamos um bom tempo nesse debate; depois, mudamos de assunto e conversamos sobre algo fútil.

Foi isso tudo o que fizemos. E é isso o que, no máximo, o cidadão comum faz: pensar e discutir.

Provavelmente, os meninos cresceram e permanecem trabalhando por aí até hoje.

*****

Semana passada, alguns instantes após sair de casa rumo à faculdade, uma menininha aproximou-se de mim e disse alguma coisa. Eu a ignorei e acho que resmunguei algo do tipo: “to sem dinheiro” e continuei andando. A garota rapidamente falou: “eu não estou pedindo dinheiro!”

Curioso, resolvi parar e falar com a garotinha – até porque, talvez ela estivesse precisando de ajuda. Pedi para explicar o que ela queria.

- Você pode comprar alguma coisa pra eu vender? – perguntou.

- Desculpa, estou realmente sem grana! – respondi, mas dessa vez com sinceridade e não por um rotineiro reflexo quase automático.

Cheguei a pensar em ir até o meu apartamento, pegar um livro para dar a ela, oferecer vinte reais para que ela o lesse e propor que me procurasse assim que tivesse acabado de lê-lo para que eu pudesse lhe dar outro. Mas, ao invés disso, dei-lhe as costas e fui direto para a faculdade – e, mesmo assim, diga-se de passagem, cheguei atrasado!



Escrito por Bruno Uchoa às 14h38
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Desabafo poético do não-poeta

Ah! Quem me dera ser poeta
Ser capaz de converter dor em verso
Expulsar do corpo e condenar ao papel
Os torturantes sofrimentos da alma!

Ah! Quem me dera ser poeta
Para deixar a alegria transceder
Os limites impostos ao ser
Poder dar em silêncio o berro alto
Pelo qual tanto anseio mas que não posso dar!

Esta vida bem-aventurada de poeta
É a vida que quero ter!
É na poesia que se faz a liberdade
Nos versos damos o grito contido
Choramos as lágrimas reprimidas
Rimos a gargalhada negada
Longe da coercitividade dos outros
E Ignorando o nosso próprio bom-senso

É na poesia que se faz a felicidade
É fazendo versos que nos permitimos
Sentir exageradamente as emoções
Que tão arduamente controlamos
Apesar da vontade de a elas nos entregar!
É nas poesias que o homem se entrega
À experimentação intensa
Até das mais banais sensações
Do tão mediocrizado cotidiano!

Ah! Quem me dera ser feliz e livre
Tal qual um bom e verdadeiro poeta!

*****

Considerações Finais: Como muitos sabem, eu tenho mais habilidade para escrever em prosa do que em versos. A qualidade das minhas crônicas ou ensaios são incomparavelmente superiores às dos meus poemas. Mesmo assim, ainda insisto em ter uma produção poética - que, muitas vezes, é de péssima qualidade. De todos os poemas que escrevi, poucos são razoáveis, sendo este acima um destes.

Gostei do poema acima, expressa muito bem o porquê de eu lamentar não ser um poeta. Espero que o leitor também goste dele.



Escrito por Bruno Uchoa às 03h04
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Nem luto, nem festa

Como reagir à morte de Pinochet

Não deve haver luto pelo Pinochet, aquele que perseguiu pessoas por causa de seus ideais, sendo muitos deles não envolvidos com qualquer tipo de atividade “perigosa”. Foi sob seu governo que a liberdade de expressão foi limitada e que arbitrariedades foram cometidas. Não se deve chorar por um ditador, por alguém que não tolera o que pensa diferente, o paranóico que mata por causa de um medo irracional – neste caso, o temor da “ameaça” vermelha.

Porém, os que, assim como eu, defendem a livre circulação de idéias e a constitucionalidade de todas as orientações ideológicas, não devem também ficar felizes com a morte deste ditador. Felicitar-se com o falecimento de alguém que possua ideais e opiniões diferentes das nossas é estar se igualando aos ditadores. Os defensores da democracia contradizem suas próprias crenças quando comemoram a morte de um indivíduo que tinha um posicionamento político contrário, por mais odiosa que fosse esta posição. Somente aos ditadores está reservado a alegria da morte de quem a eles se opõe; aos liberais, não deve haver prazer desta espécie.

Por esses motivos, proponho que não haja nem luto nem festa pela morte de Pinochet. Assim, estaremos mostrando sermos moralmente superiores, tolerantes até mesmo com quem não seria capaz de nos tolerar. É desta maneira que deve agir o verdadeiro democrata.

*****

Considerações Finais: Este texto é uma reação aos "defensores da democracia" que ficaram felizes com a morte do ditador. Espero ter sido clara a minha mensagem.



Escrito por Bruno Uchoa às 02h43
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Três histórias que não mudarão a tua vida

Afinal, quem disse que toda arte tem que ter um fim prático?

A indecisiodade de Dona Amélia

Dona Amélia sempre foi indecisa. Ao sair, sempre ficava na dúvida de que roupa usar; no supermercado, não tinha certeza do que iria levar; para escolher filme na locadora, então, era uma demora imensa!

Quando estava grávida do seu primeiro filho, Dona Amélia não se decidia que nome dar a ele. O marido dava suas sugestões, mas ela sempre respondia com um vago: “não sei, é uma opção... tenho que pensar melhor sobre isto”. A indecisão durou até a hora do parto. Foi somente ao segurar o bebê pela primeira vez no colo e olhar atentamente para o seu rosto que conseguiu escolher o nome – que foi, aliás, o primeiro que lhe passou pela cabeça: Frederico.

Ironicamente, o filho odiou. Apresenta-se sempre pelo sobrenome e olha de cara feia a quem lhe chamar pelo primeiro nome.

Cuspe à distância

Bernardo, de sete anos, estava em casa com o seu vizinho e amigo Gustavo, de oito, ambos completamente entediados. Bernardo lia uma revistinha da Turma da Mônica com desinteresse; Gustavo rabiscava compulsivamente uma folha de papel, ansioso por algo que lhe proporcionasse algum tipo de emoção.

-Vamos fazer alguma! – falou Gustavo, terminando finalmente com o silêncio.

-O quê? – perguntou Bernardo.

Gustavo deu algumas sugestões, mas Bernardo não concordou com nenhuma. Depois um tempo de discussão, Gustavo, já irritado, gritou:

-Mas, afinal de contas, o que você quer fazer?

-Que tal agente ver quem cospe mais longe?

Gustavo aceitou. Então, foram os dois para a janela do quarto do Bernardo e começaram a cuspir, só parando quando a boca já tava seca e a garganta irritada de tanto forçar o acúmulo de catarro.

Este pelo menos é metafísico

Tomé era agnóstico: não sabia ao certo se devia acreditar ou não no que pregavam as religiões. Para a sua razão, parecia tudo ridículo; porém, uma espécie de força incompreensível o impelia a não aceitar a inexistência de Deus. Vivia, assim, em constante dilema entre o acreditar e o não-acreditar.

Incapaz de resolver satisfatoriamente este dilema que tanto lhe atormentava, Tomé optou pelo caminho mais fácil de obter a solução do problema: matou-se.

Com licença, agora vou ver se ajudo o meu primo a se assumir como ateu ou a entrar logo para uma dessas igrejas.



Escrito por Bruno Uchoa às 00h59
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Crise Existencial

(ou Existencialista?)

Ao longo da vida, acumulamos conhecimentos, experiências, sonhos realizados e não-realizados, memórias, bens materiais, mulheres, amigos... Mas para quê? Depois do curto tempo que estamos fadados a ficar na Terra, restará dessa existência insignificante apenas nossos cadáveres podres e fedorentos, mas apenas para serem devorados pelos vermes e fungos subterrâneos. O máximo de nós que sobrevive é uma herança a ser consumida por pessoas que compartilharão do mesmo destino - portanto, não há sentido sequer em deixá-la...

Tentamos dar um significado maior para as nossas vidas criando ilusões que nos motivem a continuar neste mundo. Contudo, no fim das contas, nada disso faz diferença. Os grandes e pequenos, os burgueses e operários, os revolucionários e alienados – todos têm o mesmo destino: o perecimento e, posteriormente, o esquecimento. Uns poucos serão lembrados e, em casos ainda mais raros, prestigiados postumamente; porém, seria isso o suficiente para justificar o fardo de se viver uma vida inteira?

Existimos apenas por mero acaso. Não há razões para estarmos aqui além das quais nós próprios inutilmente construímos. Somos seres ínfimos e efêmeros perante um magnífico e persistente universo; nada do que façamos irá alterar essa realidade.

Viver é a maior futilidade que existe.



Escrito por Bruno Uchoa às 03h14
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Em Defesa dos Sonhos

Não custa nada sonhar...

Com um mundo melhor
Mesmo sendo uma utopia
Ter fé na bondade das pessoas
E de que – juntas – transformarão
Esta sociedade numa mais justa
Onde a felicidade é real
E a dor, inconcebível
E custaria nada também
Lutar por este sonho, mesmo que inalcançável
Ao invés de se conformar com o mundo que temos
- e do qual não gostamos

Não custa nada sonhar...

Mesmo que seja com algo que não podemos ter
Ter uma meta a alcançar
É uma motivação pela qual acordar
Dia após dia, ao longo da vida
É dotar de sentido a própria existência
Viver sem rumo
É despertar todo dia sem porquê
É apenas existir até morrer
É não ter para onde ir, nem o que desejar

Não custa nada sonhar...

Nem que seja apenas para nos encher
De falsas esperanças
Para sustentar a crença
De que os sofrimentos, as limitações e as renúncias
Serão, com justiça, recompensados
Para dar sentido à penitência
E nos fazer crer na absurda idéia
De que tudo, no final, valerá a pena
Mesmo que num dia distante
Do qual não temos uma prova sequer
De que ele virá

Não custa nada sonhar...

E lutar por esse sonho
Mesmo que pareça distante
Ou até mesmo irrealizável
Pois se o concretizarmos
É inevitável a satisfação
– a feliz satisfação
De ter conquistado o que foi tão desejado
E, mesmo que não o consigamos
E que nos machuquemos no processo
É preferível a tristeza de não ter conseguido
Do que o arrependimento de sequer ter tentado

Não custa nada sonhar
Sonhar para viver
Para suportar a vida
E dar-lhe sentido

Vale a pena sonhar
Porque isto não custa nada
A não ser algum esforço para alcançá-lo
Ou, quem sabe?, alguma frustração
Que é compensado pela animação
Inerente a simples existência de um sonho

*****

Considerações: Eis acima a única poesia decente escrita por mim. Na verdade, ela foi feita há muito tempo atrás, já passou por algumas mãos e lidas por um pequeno punhado de gente, mas só resolvi postá-la agora.

Espero que gostem.



Escrito por Bruno Uchoa às 23h44
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Comentários rápidos sobre algumas coisas

Na preguiça de fazer textos grandes sobre temas específicos, resolvi fazer apenas comentários pequenos sobre assuntos diversos. Adotei também uma linguagem um pouco mais informal do que o habitual. Leiam e comentem.

Pois é, é Lula de novo...

Não sei se fico triste pelo Lula ter ganhado ou feliz pelo Alckimin ter perdido. Sei lá, talvez tenha sido dos males o pior - será isto suficiente para que eu não fique decepcionado com o resultado das eleições?

Outra vez sobre o voto nulo

Mais uma vez, ganhou o “menos pior”. Muitos votaram no Lula só para não dar voto ao Alckimin. Em contrapartida, muitos dos votos no Alckimin foram feitos apenas para não serem dados ao Lula.

Fico imaginando no que aconteceria se esses que escolheram votar no “menos pior” se recusassem a dar apoio tanto ao Lula quanto ao Alckimin. Com certeza, o “menos pior” que subisse ao poder iria temer a sua fraqueza e falta de legitimidade política, sustentado pelo apoio apenas de uma pequena parcela da população.

Intelectuais e o Ócio

Seguindo recomendações de uma professora da faculdade, li o livro Direito à preguiça, do Paul Lafargue, durante as férias de Julho. Nele, o autor argumenta que a história do movimento operário se desenvolveu de um modo que, ao invés de lutarem pela oportunidade de garantir que todos possam usufruir do ócio, lutam por mais trabalho. Assim, defende uma mudança de rumo da esquerda.

Agora, comprei o livro Elogio ao Ócio, do Bertrand Russell. Ainda não o li, mas, pelo que eu vi, a obra é, na verdade, uma coletânea de textos do autor, que segue uma linha de pensamento parecida com a do Lafargue. Estou ansioso para ler. Devo fazer isso durante as férias de fim de ano.

Feriado de... do... da... da... ah, peraí que tá na ponta da língua!

Quinta-feira, feriado; sexta-feira, aproveitando o feriado no dia anterior, enforcou-se. E aí, o que você fez? Viajou a praia ou à montanha? Ou ficou na sua cidade mesmo, aproveitando para sair com os amigos, visitar parentes ou pôr em dia algumas responsabilidades (o que duvido um pouco que alguém diga que fez)?

Por falar no feriado da semana passada, você sabe qual é a importância desta data? A sua origem? Aliás, perguntando melhor: você ao menos sabe dizer do que foi o feriado?

Ah, deixa para lá, não faz diferença. Afinal, feriado no Brasil não é para se comemorar nada, é apenas para aumentar as vendas das lojas ou para serem usadas como pretexto para uma coçassão de saco generalizada.



Escrito por Bruno Uchoa às 01h29
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O Significado do Voto Nulo

Quando eleições ocorrem num período como o nosso atual, em que há uma forte descrença na política, uma reflexão sobre o voto nulo se faz necessária. Para isso devemos, primeiramente, entender o que significa a escolha de anular o voto; depois, analisar a influência do voto nulo numa eleição.

No nosso sistema democrático, o candidato que recebe o maior número de votos é o que assumirá um determinado cargo (desconsiderando aqui os remanejamentos de votos permitidos aos partidos políticos), sendo que cada eleitor tem direito a votar num único candidato por função. Assim, o voto de um cidadão representa qual político este apóia e confia; quando se vota num candidato, o eleitor está expressando que é aquele quem considera digno de tomar posse, seja lá qual for o motivo.

Seguindo este raciocínio, a anulação do voto representa a ausência de um candidato ou de uma proposta que o indivíduo apóie. Então, ao anular, o eleitor demonstra que não está de acordo com a posse de nenhum dos políticos que concorrem àquele cargo.

Mas, considerando o fato de que, pelo menos para cargos no Executivo, somente pode empossar aquele que tiver mais de 51% dos votos (até mesmo por respeito ao que se entende como democracia), o que acontece quando a nulidade atinge 51% dos votos? Sob o ponto de vista legal, de acordo com o site do TSE, estes votos em nada influenciam as eleições – a menos, é claro, quando são invalidados no caso de um candidato que teria os recebido, por algum motivo, tenha a sua posse impedida por algum entrave legal. São votos sem qualquer peso decisório e são, por isso, desconsiderados.

Mesmo que a Constituição lhe negue peso na decisão eleitoral, ele não perde o seu significado. Se, por algum acaso, um candidato tenha, numa votação onde o percentual de nulidade tenha alcançado 51%, mais de 51% dos votos válidos (ou seja, superior a mais ou menos 25% dos votos totais), ele assumirá. Porém, ao assumir, deve ter em mente que não conquistou o poder com o apoio da maioria e que terá que se esforçar para obter este apoio – afinal, um governo que foi apoiado por apenas cerca de um quarto da população não possui legitimidade e é, por isso, instável.

Portanto, o voto nulo é uma forma do indivíduo demonstrar que, seja quais forem os motivos, não está de acordo com que nenhum daqueles candidatos exerçam um mandato. Mesmo que perante a lei tal ato não faça diferença numa eleição, o seu significado por si só já o dá um peso nada irrelevante.

*****

Considerações Finais: De fato, este não é um dos meus melhores textos. Aliás, ele é um pouco mal trabalhado. Mas estou aí explicando o porquê da minha polêmica decisão de anular o meu voto para Governador e Presidente: me recuso a dar voto ao Cabral ou a Frossard, a Lula ou a Alckimin.

No mais, queria alertar que o segundo turno está se aproximando aí. Então, caros leitores, votem com consciência!



Escrito por Bruno Uchoa às 22h34
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O cadáver num caixão

Aquela quarta-feira tinha começado como uma outra qualquer: acordei oito e meia da manhã, me arrumei e fui para a aula de filosofia no IFCS – cheguei atrasado, diga-se da passagem; nunca fui exemplo de pontualidade. Dia comum, senão fosse pela notícia do falecimento do meu avô que recebi ainda naquela aula. Horas mais tarde, eu estaria no cemitério com a minha família e mais uns amigos para o enterro...

Depois de chegar no lugar do funeral e falar com todo mundo, olhei para o caixão de longe. Uma espécie de curiosidade mórbida se instalou em mim; eu queria ver o cadáver de perto, observar com os meus próprios olhos o seu rosto sem vida. Então, me aproximei.

Parado, de olhos fechados e boca aberta. Sua pele estava roxa, mas não muito fora da normalidade. Parecia apenas estar apenas num sono profundo do qual logo despertaria. Era perturbador. Senti uma grande vontade de sacudir o caixão e gritar bem alto: “porra, acorda! Vamos, acorda!” com alguma esperança de que talvez, quem sabe, ele estivesse apenas dormindo mesmo e tudo não passava de um grande engano. Com dificuldade me controlei para não fazer esta cena ridícula (será que foi por este motivo mesmo que eu tentei me controlar? Será que não foi para aparentar ser mais forte do que realmente sou? Não tenho certeza).

“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”, disse Carlos Drummond de Andrade. De fato, a imagem me atormentou, a idéia de alguém próximo morrer me machucou, mas tive que me conformar com isso – afinal, a morte é uma destas coisas da vida que são inevitáveis e imutáveis. Na hora, me abalei em vê-lo morto; mas, com o tempo, aquilo foi parando de me afetar.

Conto isto não por mero desabafo, pois a dor já passou, mas sim como registro de uma experiência pessoal marcante. E também, é lógico, para fazer contraste com o post anterior, aproveitando assim uma oportunidade genial e cruel que o destino me proporcionou: a de refletir no Textando sobre duas experiências distintas com a morte.



Escrito por Bruno Uchoa às 01h01
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Um cadáver no posto de gasolina

Era mais uma madrugada de sábado em que eu voltava com os meus amigos para casa após uma reunião na Praça Varnhagem. No caminho, vimos um aglomerado de pessoas e dois carros da polícia num posto de gasolina que há perto da PE da rua Barão de Mesquita. Imaginamos, num primeiro momento, que tivesse acontecido alguma briga séria ou algo do gênero por lá e, por isso, a presença de tanta gente e de policiais. Curiosos, resolvemos ir para lá ver o que estava de fato acontecendo.

Quando nos aproximamos, reparamos que havia um cadáver. Mesmo coberto por um saco preto, pudemos ver partes do corpo do defunto. Resolvemos perguntar para dois jovens que também estavam no local o que tinha acontecido; responderam-nos que, muito provavelmente, se tratava de alguém que foi ferido gravemente durante uma reação a um assalto. Satisfeitos com essa explicação, saímos de lá e prosseguimos o nosso caminho para casa, esquecendo imediatamente dessa cena.

Um tempo depois, lembrando deste fato, percebi como tinha sido tão indiferente a algo tão terrível. Eu vi uma pessoa morta, uma provável vítima da violência urbana, e não senti nada quanto a isso – nem raiva, nem piedade, nem tristeza, nem nada. Foi como se tivesse me deparado com algo que, de tão rotineiro, não fosse capaz de deixar marca alguma em mim.

Será que sou tão frio e insensível assim? Ou será que apenas a morte seja algo que não consegue me perturbar? Não sei ao certo. Aliás, nem sei ao certo porque escrevo esta crônica, pois, com certeza, não é para desabafar – afinal, como disse, essa experiência não me deixou marcas e que certamente irei esquecê-la em breve. Acho que só escrevi mesmo para ter com o que atualizar este blog.

*****

Aos poucos leitores que ainda tenho (se ainda os tiver, de fato), justifico a minha ausência: não posso atualizar um blog de textos se eu não tiver um texto para postar. Ando escrevendo muito pouco, e também não tenho procurado obras de outros autores para pôr aqui.

Bem, pelo menos hoje eu postei - após dois meses sem postar nada, é verdade, mas isso significa que o Textando ainda não caiu totalmente no esquecimento nem foi completamente abandonado. Agora, para que não digam que o post foi totalmente inútil, seguem abaixo algumas citações.

Frases do Dia

"Quem sabe tudo suportar pode tudo ousar" - Marquês de Vauvernagues

"É mais fácil lutar por princípios do que viver por eles" - Alfred Adler

"Você deve ter mais sonhos do que memórias" - Wayne Calloway

"Uma morte honrosa pode glorificar uma vida sem nobreza" - Cícero

"Não te alegres com uma morte: lembra-te que todos morrerão" - Eclesiastes 8, 7



Escrito por Bruno Uchoa às 23h54
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Tijuca, Homem, de 15 a 19 anos, Portuguese, English, Cinema e vídeo, Arte e cultura, Livros
MSN - tio_joe666@hotmail.com
Histórico
Outros sites
  Comerciais dos anos 50
  Darwin Awards
  Distant Thunders
  Domínios de Seth
  Filosofando
  Letrados
  O Manifesto
  Mente Vibrante
  Precipitação
  Saxplr HP
  Surtos de uma Publicitária Metropolitana
  Tiu na Net
  A Vida En-Cena
  Sou uma mulher
  Meu caminho é cada manhâ
  Meu flog
  Tomos Poéticos e Outros Céticos
  Poeta de Rua
Votação
  Dê uma nota para meu blog



O que é isto?